CRÍTICA: Bandidos na TV mostra o interessante caso do apresentador “que matava por audiência”

Apresentador Wallace Souza é o tema de Bandidos na TV

Ao me aventurar pelos episódios de Bandidos na TV, nova série documental da Netflix, fica o sentimento de que o Brasil é realmente muito grande. Tão grande a ponto de não fazer ideia sobre quem era Wallace Souza, muito menos de todo o seu envolvimento com o mundo do crime.

Assim, como um bom espectador – e crítico, fui atrás de informações sobre o caso. E eu simplesmente fiquei chocado com o que me deparei. Obviamente, isso me motivou ainda mais a assistir a nova doc série da plataforma, e as expectativas foram devidamente atendidas.

A ascensão de um fenômeno

Manaus, 1996. Entrava no ar o programa Canal Livre, pela emissora TV Rio Negro – afiliada da Rede Bandeirantes. Apresentado por Wallace Souza, o programa foi aos poucos criando território. Em um mínimo tempo de existência, começou a se tornar líder de audiência, batendo até mesmo as atrações de grandes canais como a Rede Globo. A hora do almoço dos amazonenses era sagrada na companhia de Souza.

O programa tinha um formato bastante popular. Wallace, com seu jeito espontâneo, falava a língua dos pobres. Bem como, ajudava pessoas necessitadas em qualquer sentido – desde um prato de comida até pneus novos para o carro. Entretanto, o forte do programa, que puxava os números de audiência, era um: mostrar a criminalidade de Manaus, da forma nua e crua. E a equipe do Canal Livre não tinha medo de enfrentar o perigo. Eles sempre estavam com furos de reportagem, mostrando em primeira mão os grandes acontecimentos locais.

Basicamente, este é o ponta pé inicial para o documentário em forma de série explorado pela Netflix. Logo no primeiro episódio, vemos a construção da figura de Wallace. Além disso, como que esse impulsionamento o levou a ser o Deputado Estadual mais bem votado do Amazonas. O seu nome era associado a de um verdadeiro “Salvador da Pátria”.

Entretanto, nem tudo foram flores. Do dia para noite, Wallace Souza viu sua vida virar de cabeça para baixo. Isso porque seu nome passou a ser associado à uma série de crimes que aconteciam em Manaus – todos mostrados e explorados pelo Programa Canal Livre. Começava, assim, uma grande investigação contra o crime, e contra Souza.

Tudo pela audiência… literalmente!

A narrativa da doc série da Netflix é esplêndida. Ela oferece as informações necessárias, durante o primeiro episódio, para você se familiarizar com a figura de Wallace Souza, principalmente para aqueles que nunca ouviram falar dele. E quando você começa a se perguntar se ele poderia realmente ter cometido algum crime, a derrocada começa.

O nome de Souza foi mencionado por um ex-PM, expulso da corporação, por corrupção. Moacir Jorge Pessoa, o “Moa”, acusou tanto Wallace quanto seu filho, Raphael Souza, de envolvimento com grupos de extermínio. Basicamente, Wallace encomendava crimes para então mostrá-los – em primeira mão – no seu programa Canal Livre. Bem como, os traficantes mortos e mostrados no programa seriam traficantes “rivais” de Wallace, e o programa era utilizado como um meio de prejudicá-los, para que Wallace se beneficiasse em esquemas de tráfico de drogas.

Wallace Souza teria usado programa para eliminar inimigos traficantes. Imagem: Netflix/Divulgação

Wallace Souza até tentou desacreditar “Moa”, afinal era a palavra de um ex-PM bandido contra o “amigo do povo”, que ajudava os necessitados e lutava contra o crime organizado. Porém, Souza passou a ser alvo de uma perseguição e, desde então, viu seu nome sendo coberto por uma lama de problemas. Desde uma foto que o ligava à Moa, de forma pessoal, até listas de armas e balas bem como altos valores de dólares e reais em sua casa.

Moa, ao ser interrogado pela polícia, chegou a entregar que trabalhava para Wallace. Também confirmou que os seguranças do deputado (policiais ou ex-policiais, em sua maioria) eram orientados pelo próprio parlamentar a “tocar o terror na cidade [Manaus], ou seja, praticar homicídios, quebrar paradas de ônibus, placas, vitrines, tudo com o intuito de desmoralizar o trabalho de inteligência da Secretaria de Segurança Pública“, ressalta o documentário. Souza foi de herói à vilão em instantes.

Peças de um quebra-cabeça

Acontece que a história em si de Wallace é um quebra-cabeças sem fim. Quando você pensa que tem a história delineada, vem alguma informação que desmonta todas as informações até ali.

A investigação sobre as mortes encomendadas, por exemplo, até faz sentido. Como que a equipe do Canal Livre sabia, antes de todo mundo, onde acontecia os crimes? E por que eles sempre chegavam antes? Em determinado momento do documentário, a perícia examina um vídeo em que o repórter chega dar a hora exata do crime, os métodos e o sexo de um corpo completamente carbonizado. Algo completamente impossível. Ali, você passa a enxergar a situação com a óptica de que Wallace Souza realmente tem culpa no cartório.

Assim, a cada episódio, mais situações são adicionadas. O documentário acerta em não apenas fixar-se na trajetória de Wallace, mas sim dando um panorama geral do que estava acontecendo naquele momento, como um todo. E esse panorama acaba permitindo que dois lados da história seja apresentado. Acontece, assim, um dos maiores baratos desse doc, cabendo ao espectador pesar em um lado ou outro.

Há, por exemplo, uma situação envolvendo o ex-prefeito de Coari, no Amazonas, que acabou sendo perseguido por Wallace Souza por estar envolvido em uma rede de pedofilia. Ou, a perseguição que Wallace Souza teria recebido do então governador Eduardo Braga. Tudo isso, acaba criando uma linha de argumentação que o apresentador e deputado possa ter sido vítima de uma armação. Assim, uma teia de aranha com muitas informações é montada, levando o espectador a alimentar a sede de assistir o próximo episódio.

Trama envolvente

Após assistir os episódios da série da Netflix, compreendemos que a história do “apresentador que matava por audiência” é apenas uma ponta do iceberg. Um ponto de partida, para uma história que é “repleta de reviravoltas e choques“, como mesmo apontou o diretor Daniel Bogado, em entrevista à BBC News Brasil.

O fato de que há muitas questões em aberto, deixa a trajetória de Wallace Souza ainda mais atraente. A família defende até hoje a sua inocência, por exemplo. Por isso, o documentário dá espaço para que os próprios familiares falassem em sua defesa. Apesar disso, o meio jurídico deixa claro que entende-se que Wallace Souza teve culpa no cartório, e foi responsável por organizar uma das maiores fachadas da história da TV, que resultaram em – no mínimo – 17 mortes. Todas, sob a finalidade de gerar audiência.

Sem dúvidas, é uma história envolvente. Além disso, a forma como o documentário é montado entrega ao espectador um combo perfeito de entretenimento. Sem tomadas muito chatas, inserindo narrações, trechos de entrevistas e informações que se mostram relevantes a todo momento, Bandidos na TV é um exemplo incrível de como se fazer uma doc série bem produzida e dirigida.

Claro, que uma história de encher os olhos acaba sendo a cereja do bolo. E nesse caso, Wallace Souza, até aqui, vai conseguir chamar tanto a audiência que ele queria. Maratona mais do que recomendada!

Algumas informações reais sobre o caso Wallace Souza

  • Wallace Souza era ex-policial civil. Foi expulso da corporação por suspeita de “desvio de gasolina” em 1990. Ele negou essa acusação.
  • Posteriormente, tornou-se repórter. Depois, criou o programa Canal Livre onde se tornou líder de audiência.
  • Foi eleito deputado três vezes: 1998, 2002 e 2006. Proporcionalmente, chegou a ser o deputado mais votado do Brasil.
  • A derrocada começa com a prisão do ex-policial militar, Moacir Jorge, o Moa. Ele é preso com armas ilegais e cocaína.
  • Moa denuncia, então, uma organização criminosa voltada ao tráfico de drogas. Ele acusa Wallace e seu filho de chefiarem a organização.
  • Uma investigação passa a recair sobre o filho de Wallace, uma vez que o deputado tinha foro privilegiado na época.
  • Uma das provas que relacionava Wallace a Moa era uma fotografia dos dois juntos na piscina da casa do apresentador. A Polícia Civil e o Ministério Público do Amazonas criaram uma força-tarefa para investigar as acusações.
  • Segundo denúncia da Promotoria à Justiça, foram encontrados indícios suficientes da participação de Wallace no comando da organização criminosa.
  • No fim de setembro de 2009, ele teve o mandato cassado pela Assembleia Legislativa do Amazonas.
  • A Justiça, então, decretou sua prisão sob acusação de associação ao tráfico. Ele passou quatro dias foragido e se entregou à polícia em 9 de outubro de 2009.
  • Wallace sofria de síndrome de Budd-Chari, uma obstrução do sistema de drenagem do fígado. Foi permitido que, posteriormente, ele fizesse tratamento em São Paulo.
  • Com a saúde deteriorada, ele passou a cumprir prisão domiciliar.
  • Após o quadro da doença evoluir, Wallace Souza morre em 27 de julho de 2010, após sofrer uma parada cardíaca.
  • Devido a morte, os processos penais contra ele foram suspensos.
  • O filho de Wallace, Raphael Souza, foi condenado a nove anos de prisão pela morte de um homem acusado de ligação com tráfico de drogas em Manaus. Hoje, ele cumpre o regime semi aberto. Ele negou todos os crimes.
  • Wallace Souza morreu se declarando inocente. Até hoje, muitas pessoas no Amazonas acreditam em sua inocência.

Fonte: Mix de Séries

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