Paula Litaiff: série “Bandidos na TV”tornou-se pauta de debate social e político

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Com 15 anos de experiência em coberturas nas editorias de Polícia, Cidades e Política, a jornalista Paula Litaiff foi uma das principais narradoras da história do “Caso Wallace” à produção da série “Bandidos na TV”, já disponível para streaming na Netflix.

Atualmente, Paula é editora executiva do Portal Amazonas1 e da Revista Cenarium, em Manaus. Ela também colabora com matériaspara o jornal e portal O Globo, no Rio de Janeiro. Veja abaixo uma entrevista com ela. 

Site Bandidos Na TV – Quando e como ocorreu o convite para participar do documentário “Bandidos na TV”?

Paula Litaiff – O convite ocorreu em abril de 2017. Recebi uma ligação da jornalista Hélida Tavares, produtora do documentário em Manaus,com quem eu já tinha trabalhado na redação do jornal Diário do Amazonas.

Na primeira abordagem, Hélida me informou que havia uma equipe de TV da Inglaterra, no Amazonas, para produzir um documentário sobre o “Caso Wallace”, mas não me falou exatamente qual seria a emissora de televisão. Ela apenas me disse que o diretor do documentário, jornalista Daniel Bogado, tinha importantes trabalhos produzidos para a BBC e CNN.

A jornalistaafirmou, também, que Daniel ficou interessado em ouvir um depoimento meu sobre o “Caso Wallace”, depois de ler as matérias que eu tinhaescritopara o Diário durante todo o processo, entre 2008 e 2010.

Como se tratava de um caso que resultou noassassinato de muitas testemunhas, eu pedi um tempo para avaliar. Eu receava que a retomada do caso na mídia pudesse repercutir de forma tal, que as pessoas envolvidas no projeto ficassem expostas a ameaças, e me preocupei, principalmente, com a minha família.

Depois de quase um mês, conheci o diretor do documentário que me deixou um pouco mais segura. Ele me perguntou se eu poderia explicar detalhes do caso e bastidores da cobertura.

SBNTV – Por que você aceitou o convite, o que mais lhe motivou a participar do seriado?

Paula Litaiff – Depois de ter me sentido mais segura durante a conversa com a direção do documentário, eu entendi que precisava explicar alguns pontos que ficaram em aberto no “Caso Wallace” e como a imprensa foi usada pelas duas partes, tanto pela defesa quanto pela acusação, na época, para influenciar nas decisões do Judiciário.

SBNTV – Nas primeiras semanas da série, “Bandidos na TV” já ficou entre as produções mais populares da Netflix. Você esperava essa repercussão toda? Alguém já lhe abordou para falar da série?

Paula Litaiff – Sinceramente, eu não esperava essa repercussão. E fui abordada, sim, dois dias depois da estreia, em 31 de maio. Na primeira vez, um casal me parou no supermercado para dizer que o seriado conseguiu deixar o telespectador intrigado sobre a inocência ou não do ex-deputado. Na outra, adolescentes da escola das minhas filhas me perguntaram se haveria uma segunda temporada para elucidar os crimes que ficaram em aberto. Embora o caso seja trágico, eu fiquei feliz por ver que tanto os jovens como os adultos entenderam a importância do documentário, enquanto pauta de debate social e político.

SBNTV – Quais foram as lembranças mais difíceis que você teve para explicar para a produção, do ponto de vista jornalístico?

Paula Litaiff – Como o caso em si foi muito complexo, dado o número de vítimas, acusados e testemunhas nos processos judiciais, eu acredito que as lembranças mais difíceis foram aquelas as quais envolviam contradições nos interrogatóriosdos depoentes.

SBNTV – Qual foi a tática que você usou para lembrar dos detalhes do caso, como essas questões relacionadas às contradições dos envolvidos? Houve algum roteiro da direção?

Paula Litaiff – Essa questão virou tema de um debate que tive com colegas de profissão em um grupo de WhatsApp. Eles achavam que eu tinha recebido um roteiro para falarna série. Na verdade, quando o diretor me explicou que eu teria que discorrer sobre as matérias que eu tinha escrito ou ajudado a produzir, eu resolvi fazer a impressão de todo o material publicado, na época, pelo jornal Diário do Amazonas e os reli, na ordem cronológica.

É importante dizer que, de 2008 a 2010, eu tive um grandeapoio do diretor do Diário, Sérgio Bartholo, e da editora executivaAna Cláudia Leocádio, para imergir no “Caso Wallace”. Então, eu vivia aquilo 24 horas do meu dia e, graças a Deus, conseguimos dar muitas matérias exclusivas, mas sempre ouvindo todos os lados.

Apesar do tempo que passou, lembrei dos detalhes, relendo apenas o material. Portanto, não houve roteiro da direção da série. O diretor me perguntava sobre os temas do caso, e eu lembrava e falava de forma improvisada. Prova disso é que depois de assistirà série, percebi que cometi erros de português e repeti muitas palavras. Creio que pelo cansaço das gravações, que, em alguns casos, chegavam a passar de cinco horas, em um único dia.

SBNTV Qual a diferença de fazer a cobertura de um caso desse, naquela época, quando as pessoas faziam menos uso das redes sociais e Whatsapp?

Paula Litaiff – A principal diferença era que se você quisesse um furo (ou seja, um material exclusivo), não adiantava fazer apenas uma ligação. Era necessário ir aos locais, aonde os membros da Força Tarefa estavam reunidos. Houve dias, em que fiquei mais de seis horas em frente ao Ministério Público para esperar um determinado promotor, e tentar obter informações, mas sempre valeu a pena. Eu nunca voltava com as mãos vazias.

SBNTV Quais imagens mostradas na série lhe surpreendeu?

Paula Litaiff– Creio que foi rever o semblante de revolta do filho de Wallace Souza,Willace, contra os jornalistas, como se nós tivéssemos o interesse pessoal de destruir a imagem do pai dele. Infelizmente, ou felizmente, estávamos fazendo o nosso trabalho. Afinal de contas, eram autoridades, como promotores, delegados, secretários de Estado, denunciando um deputado e um suposto grupo criminoso, liderado por ele, apresentando documentos, registros de ligações telefônicas, fotos, etc.

Vi que tanto eu como os outros colegas fazíamos a nossa parte de ouvir o Wallace, mas sempre havia o argumento da perseguição política e não de defesa da denúncia em si. Isso nos causava mais dúvidas e receios. Não foi fácil para a família, mas creio que assim como eu, muitos jornalistas se sentiam pressionados tanto pelos seus chefes como pela população para buscar informações novas sobre o caso, sendo elas positivas ou não para o pai dele.

SBNTVAo final da série “Bandidos na TV”, você faz uma reflexão sobre um comentário do filho do Wallace. Em algum momento refletiu que a imprensa poderia ter sido usada como manobra?

Paula Litaiff – Na época, quando surgiram as primeiras denúncias, em 2008, eu tinha um pouco mais de três anos de jornalismo, trabalhando especificamente nas áreas de Polícia e Cidades. Passei a escrever para Política, a partir do “Caso Wallace”, e admito que não compreendia bem as estratégias de manobras da imprensa.

A partir de 2009, quando o caso chegou ao seu ápice, eu consegui entender que tanto a defesa quanto a acusação do ex-deputado buscavam usar os meios de comunicação para obter influência nos processos judiciais, e foi quando decidimos publicar apenas o que fosse documentado ou tivesse imagem, não mais somente declarações das autoridades.

Ocorre que a Força Tarefa sempre apresentou depoimentos assinados, com registros de ligações e até gravações de conversas. Era difícil descartar esse tipo de material, porque, jornalisticamente e juridicamente, eles estavam respaldados.

Contudo, a minha reflexão, ao final, foi voltada mais ao poder de ingerência do jornalismo. Se temos mesmo o poder de interferir na vida das pessoas ou se esse poder nos é dado pelas instituições/autoridades. Esse é um debate longo e complexo que renderia até outro documentário.

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